Monday, January 19, 2009

(JOÃO AGUARDELA 1969-2009)


Que escuridão esta, Senhor

Abram alas, Ó vos omnes,

acolá vem Frei João:

aboios a toque de sampler,

Megafone à esquerda

ali onde se diz

bater a tradição,

e Naifa guardada no bolso,

doce, malandra, suburbana.

Abram alas, Ó vos omnes,

acolá vem Frei João:

auto da criação do mundo

nos baldios da Parede

ou no país sentado

ao sol interior,

com mulheres de negro,

cantadeiras e tamborileiros

onde alguns, poucos,

de gravador a tiracolo

iam buscar o que restava

de maias e alvoradas,

canções de berço, mondas,

sementeiras, segadas

e olhinhos verdes

em romagem de puro amor.

Tradição, cara senhora,

decerto me desculpais

mas já não tinha estômago

para isto, o meu talento

era de anjo marinheiro,

e as cordas do meu baixo

lâminas de arado.

Mas agora quem fica para escutar

esse país sitiado?

E quem fica para tocá-lo?

Que escuridão esta, Senhor.

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João Aguardela nos Capuchos, em Sintra


(a partir de uma lembrança ouvida ao João em Dezembro de 2007)

Toma lá esta facada

que te chegue ao coração

já não tornas a ouvir missa

no quarto de Frei João.

Telha solta e zás, ei-lo

no refeitório forrado a cortiça

com demais frades observantes

de seios noviços

e coxas mendicantes,

tomando o pulso ao vento

na mesa de pedra,

a mão trepadora auscultando

a face de hera,

baptismo na Casa das Águas,

Coro Alto, genuflexão,

cigarro depois à laia de incenso,

coisa de vândalo ou gatuno

com três mil anos de perdão.

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Wednesday, December 31, 2008

Travessa do Freixo


A sua vida é escarpada:

não abordes, Romeu

suas vertentes de ânimo leve

de grampos e cordas precisarás.

Ou isso, Romeu, ou te atiram

- irmãos, pais e vizinhos -

do alto do seu amor

pondo fim ao sonho de assentares

em vigas gémeas,

ao Douro cobiçando

o affair da Ponte do Freixo.

Se ousares a escalada vê bem

onde assentas o pé:

são de zinco os alpendres

e varas no lixo buscadas

sustentam solitárias a paleta

que o sol trouxe de Mântua,

Arles e Santorini:

não te escape o pé no salitre

que ao longo da muralha desce

e venhas depois com a cantiga

de que eras cotovia.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Friday, October 24, 2008

Mecânica de Pneus no Carvalhido



para o Marco, in memoriam

Fomos amigos de infância,
andámos à bulha,
disputámos a bola e outras coisas
da mais alta importância
na Quinta da Prelada
quando o Porto confinava
com lameiros e campos de milho
e nem assim findava
pois lhe acresciam vacas,
galinhas, batatas e até cavalos
antes do fosso medievo da VCI
barrar o acesso à torre que havia
no meio do lago, e onde
só de barca se chegaria
se a barca, tirada que estava da margem
e de remos espoliada, alcançássemos.

Na Monte dos Burgos montados em bicicletas
amiúde repreendidos, de tão íngremes,
pelo bom Chefe da 13ª,
só nesta garagem os planos
não saíam furados,
sempre aí havia quem nos saudasse:
Bons-dias Ó câmaras-de-ar
de propósitos vazias!
À barca, à barca!, remendos do estio!
E pois entraste na barca
foi teu arrais automóvel
e tua prancha fatal a mota
com que saíste para fumar às escondidas,
ou namorar as meninas do Carvalhido
antes do salvífico hospital
que se ergue para os queimados
qual pira assente em antenas
e poentes Firestone.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Friday, September 26, 2008

New Oporto, 2901 (Portus Martiani)

A Agência Espacial Europeia
apostada em sensibilizar futuros investidores
no ramo imobiliário
em Marte, Io, Europa, Titã
ou num dos 280 exoplanetas descobertos,
tem vindo a difundir esta visão de artista
do que poderá vir a ser um novo,
ilimitado
e cósmico boom de betão:
os colonos precisam de casas módicas e rápidas
com cabo e vídeo-vigilância
- não se faça algum alien passar
por testemunha de Jeová.

Vê-se, amarelo garrido,
um robô de grande tonelagem,
um robô extremamente inteligente,
que após terraplanar com seus irmãos
o Monte Olimpo e o Vale Marineris
jaz aproveitado como peça decorativa
(aquilo que há um milénio se fazia
com os velhinhos carros de bois).

Atrás dele erguem-se prédios
dos idos de 2800,
época negra da construção,
marcada pela falta de gosto
e total desarticulação com os Planos
Directores Marcianos.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Monday, September 1, 2008

Estaleiro do Ouro: Davy Jones’ Locker

Sigo no encalço do poente
que se cumpre em Lordelo
e da Ceuta que as naus olvidaram
entre os limos o verdete as tábuas
no estaleiro um vazio
me apodrece de saudades
de traineiras semi-afundadas
ainda que lá dentro,
como em porão de navio negreiro
entre seringas limões caranguejos
drogados ferrassem o galho
e o pescoço os pés o joelho.

Que falta me fazem as rombas carcaças
de quilhas empenadas,
o convés qual sobrado de casebre aluído,
vigias lambidas pelo sal das marés
proa cabisbaixa na língua do Cabedelo,
ou ermidas, crucifixos repassados de luz,
madeiro ungido não sei de que negrume
e do precário lavor
de tantas mãos de marceneiro,
e agora José, de nojo
não se farão rogados
ao cheirar teus andrajos:
mas quem vestirá
de luto por ti?

E porque não te perdoaste
os que te haviam perdoado?

E porque te abandonaste, ó Kursk de faina
na fossa de Mariana
ou de outra agarrada qualquer?

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Friday, July 18, 2008

O 111 de Eugénio na Duque de Palmela

Vivia sozinho na ilha do Porto
de láudanos cercado
por todos os lados, era portanto
um corvo-marinho,
bem viveria em Maspalonas
de conluio com o Público
ao Domingo e alguns gatos.

Este ano voltou a florir
o jacarandá no Largo do Viriato,
o despudor do seu enxame lilás
obriga a mudar de passeio.
Tudo se renova e restaura
entre estrelas de arrabalde
e cães atropelados,
mas nele a morte era,
quem diria, mortal.

Para si reclamaram este par
de palavras: branco
e cal, e à custa delas
o corpo ardeu-lhe
vagaroso e escuro
com maçãs no hospital
e foi no fim como previra
ranho, baba, merda
em suma tudo menos
um passeio alegre.

Levantam-se da rua as vozes
e voltam a cair,
não batem à sua porta
como dantes para morrer,
algumas dormem ao relento
na esperança de camarote
no piso mais térreo da vida.

Após dez ou mil anos
a consumir obrigado
matéria solar
é preciso agora deixá-lo dormir
sem o mar.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Tuesday, June 10, 2008

Prós & Contras – A Nova Avenida dos Aliados

(com a participação especial de Mel Gibson)


Enquanto o espelho de água

não gera focos de infecção,

e o socalco da piscina não serve

de jacuzzi a mosquitos


e os meninos da Ribeira aqui vierem

ruidosos patinhar, lembrando

os patos da infância

em fila indiana


(linha de coca para Deus snifar)

e Serralves lhes invejar

as assemblages improvisadas

de sapatilhas e calções,

e porque a sapato dado

não se olha o dente,

e porque há dias em que apetece

agradecer terem-nos dado

mais avenida para olhar


menos ocupada com flores

de sacada ou a vasos afeitas,

porque amores-perfeitos são estes

sentados nas cadeiras,

as tão generosas, de armar,

algumas com toalhas de banho

e aparas de pardais, sim

apetece mais o declive

entre os Paços e o Palácio

das Cardosas, mesmo que agora

um gajo corra o risco de enfiar

as trombas no pior sítio

do cavalo de D. Pedro,

de rabo, se quereis saber,

virado para o lado certo.


Quanto às árvores, dai-lhes

tempo para copar os eleitores

que os quatro cantos enfim

vislumbram da sala de visitas,

amouriscada que estava de calcário

com vindimas e bois démodé.


Já o crepúsculo dá cartas

na esquina do Guarani,

o sol nas empenas

de arco e flecha lanceiro

acelera além de S. Bento,

espalho-me ao comprido

de cinza e pedra vestido

e apetece-me então dizer

bela Chernobyl de bairro

nos servis, ó edis,

boa seria para filmar

os Mad Max restantes:

guerreiros da estrada

há-os em quantidade

(e motos da morte

com um pouco de sorte)

mas sem nuvens radioactivas,

mutantes, ignóbil calcário do sul

(ou civis), Mel Gibson

voltaria a rodar no Outback

de New South Wales,

um pouco menos deserto

pós-moderno e minimal,

e com a enorme vantagem

de não ser mobilado

pela infame JC


(Decaux).

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Thursday, May 29, 2008

Café Duque

outro para o Alexandre Bahia

Da morte refeitos daremos
dilectos poemas em folhas A4
às mesas do Inverno,
ficaremos a vê-los arder
no gasto mármore entornados
ou na mortalha do sol enrolados,
barbas de milho fumadas
no tapete de cimento
onde aparecem bordadas
as armas do arvoredo
à porta dos paços ducais
entre Palmela e Saldanha.

 

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Monday, April 7, 2008

Prado do Repouso



para o Alexandre Bahia

Proporás um cemitério
a tinta-da-china ou carvão
que o município aprovará:
prado a perder de vista
onde em vez de mausoléus
araucárias de família
com mineiras raízes
abrindo catacumbas
de primitiva cristandade,
Éden a vau no caudal do Estige.

Desenharás um cemitério
sem nos perderes de vista
(que somos senão adiadas
e símias lápides andantes?),
fá-lo-ás no terraço
da Duque de Palmela,
a mesma de Eugénio
que tão perto repousa
com luz de pedras por navio
fronteiro às garagens diurnas.

Desenharás um cemitério
com tudo o que aos mortos aproveite
e não apenas ao luto dos vivos:
biblioteca, esplanada, café de saco,
jardins super flumina duriensis.

Fa-lo-ás com a calma de um piloto
bairrista e portuense.

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