Saturday, November 21, 2009
Monday, January 19, 2009
(JOÃO AGUARDELA 1969-2009)
Que escuridão esta, Senhor
Abram alas, Ó vos omnes,
acolá vem Frei João:
aboios a toque de sampler,
Megafone à esquerda
ali onde se diz
bater a tradição,
e Naifa guardada no bolso,
doce, malandra, suburbana.
Abram alas, Ó vos omnes,
acolá vem Frei João:
auto da criação do mundo
nos baldios da Parede
ou no país sentado
ao sol interior,
com mulheres de negro,
cantadeiras e tamborileiros
onde alguns, poucos,
de gravador a tiracolo
iam buscar o que restava
de maias e alvoradas,
canções de berço, mondas,
sementeiras, segadas
e olhinhos verdes
em romagem de puro amor.
Tradição, cara senhora,
decerto me desculpais
mas já não tinha estômago
para isto, o meu talento
era de anjo marinheiro,
e as cordas do meu baixo
lâminas de arado.
Mas agora quem fica para escutar
esse país sitiado?
E quem fica para tocá-lo?
Que escuridão esta, Senhor.
João Aguardela nos Capuchos, em Sintra
(a partir de uma lembrança ouvida ao João em Dezembro de 2007)
Toma lá esta facada
que te chegue ao coração
já não tornas a ouvir missa
no quarto de Frei João.
Telha solta e zás, ei-lo
no refeitório forrado a cortiça
com demais frades observantes
de seios noviços
e coxas mendicantes,
tomando o pulso ao vento
na mesa de pedra,
a mão trepadora auscultando
a face de hera,
baptismo na Casa das Águas,
Coro Alto, genuflexão,
cigarro depois à laia de incenso,
coisa de vândalo ou gatuno
com três mil anos de perdão.
Wednesday, December 31, 2008
Travessa do Freixo

A sua vida é escarpada:
não abordes, Romeu
suas vertentes de ânimo leve
de grampos e cordas precisarás.
Ou isso, Romeu, ou te atiram
- irmãos, pais e vizinhos -
do alto do seu amor
pondo fim ao sonho de assentares
em vigas gémeas,
ao Douro cobiçando
o affair da Ponte do Freixo.
Se ousares a escalada vê bem
onde assentas o pé:
são de zinco os alpendres
e varas no lixo buscadas
sustentam solitárias a paleta
que o sol trouxe de Mântua,
Arles e Santorini:
não te escape o pé no salitre
que ao longo da muralha desce
e venhas depois com a cantiga
de que eras cotovia.
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
Friday, October 24, 2008
Mecânica de Pneus no Carvalhido

para o Marco, in memoriam
Fomos amigos de infância,
andámos à bulha,
disputámos a bola e outras coisas
da mais alta importância
na Quinta da Prelada
quando o Porto confinava
com lameiros e campos de milho
e nem assim findava
pois lhe acresciam vacas,
galinhas, batatas e até cavalos
antes do fosso medievo da VCI
barrar o acesso à torre que havia
no meio do lago, e onde
só de barca se chegaria
se a barca, tirada que estava da margem
e de remos espoliada, alcançássemos.
Na Monte dos Burgos montados em bicicletas
amiúde repreendidos, de tão íngremes,
pelo bom Chefe da 13ª,
só nesta garagem os planos
não saíam furados,
sempre aí havia quem nos saudasse:
Bons-dias Ó câmaras-de-ar
de propósitos vazias!
À barca, à barca!, remendos do estio!
E pois entraste na barca
foi teu arrais automóvel
e tua prancha fatal a mota
com que saíste para fumar às escondidas,
ou namorar as meninas do Carvalhido
antes do salvífico hospital
que se ergue para os queimados
qual pira assente em antenas
e poentes Firestone.
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
Friday, September 26, 2008
New Oporto, 2901 (Portus Martiani)
A Agência Espacial Europeia
apostada em sensibilizar futuros investidores
no ramo imobiliário
em Marte, Io, Europa, Titã
ou num dos 280 exoplanetas descobertos,
tem vindo a difundir esta visão de artista
do que poderá vir a ser um novo,
ilimitado
e cósmico boom de betão:
os colonos precisam de casas módicas e rápidas
com cabo e vídeo-vigilância
- não se faça algum alien passar
por testemunha de Jeová.
Vê-se, amarelo garrido,
um robô de grande tonelagem,
um robô extremamente inteligente,
que após terraplanar com seus irmãos
o Monte Olimpo e o Vale Marineris
jaz aproveitado como peça decorativa
(aquilo que há um milénio se fazia
com os velhinhos carros de bois).
Atrás dele erguem-se prédios
dos idos de 2800,
época negra da construção,
marcada pela falta de gosto
e total desarticulação com os Planos
Directores Marcianos.
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
Monday, September 1, 2008
Estaleiro do Ouro: Davy Jones’ Locker
Sigo no encalço do poente
que se cumpre em Lordelo
e da Ceuta que as naus olvidaram
entre os limos o verdete as tábuas
no estaleiro um vazio
me apodrece de saudades
de traineiras semi-afundadas
ainda que lá dentro,
como em porão de navio negreiro
entre seringas limões caranguejos
drogados ferrassem o galho
e o pescoço os pés o joelho.
Que falta me fazem as rombas carcaças
de quilhas empenadas,
o convés qual sobrado de casebre aluído,
vigias lambidas pelo sal das marés
proa cabisbaixa na língua do Cabedelo,
ou ermidas, crucifixos repassados de luz,
madeiro ungido não sei de que negrume
e do precário lavor
de tantas mãos de marceneiro,
e agora José, de nojo
não se farão rogados
ao cheirar teus andrajos:
mas quem vestirá
de luto por ti?
E porque não te perdoaste
os que te haviam perdoado?
E porque te abandonaste, ó Kursk de faina
na fossa de Mariana
ou de outra agarrada qualquer?
Friday, July 18, 2008
O 111 de Eugénio na Duque de Palmela
Vivia sozinho na ilha do Porto
de láudanos cercado
por todos os lados, era portanto
um corvo-marinho,
bem viveria em Maspalonas
de conluio com o Público
ao Domingo e alguns gatos.
Este ano voltou a florir
o jacarandá no Largo do Viriato,
o despudor do seu enxame lilás
obriga a mudar de passeio.
Tudo se renova e restaura
entre estrelas de arrabalde
e cães atropelados,
mas nele a morte era,
quem diria, mortal.
Para si reclamaram este par
de palavras: branco
e cal, e à custa delas
o corpo ardeu-lhe
vagaroso e escuro
com maçãs no hospital
e foi no fim como previra
ranho, baba, merda
em suma tudo menos
um passeio alegre.
Levantam-se da rua as vozes
e voltam a cair,
não batem à sua porta
como dantes para morrer,
algumas dormem ao relento
na esperança de camarote
no piso mais térreo da vida.
Após dez ou mil anos
a consumir obrigado
matéria solar
é preciso agora deixá-lo dormir
sem o mar.
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
Tuesday, June 10, 2008
Prós & Contras – A Nova Avenida dos Aliados
(com a participação especial de Mel Gibson)
Enquanto o espelho de água
não gera focos de infecção,
e o socalco da piscina não serve
de jacuzzi a mosquitos
e os meninos da Ribeira aqui vierem
ruidosos patinhar, lembrando
os patos da infância
em fila indiana
(linha de coca para Deus snifar)
e Serralves lhes invejar
as assemblages improvisadas
de sapatilhas e calções,
e porque a sapato dado
não se olha o dente,
e porque há dias em que apetece
agradecer terem-nos dado
mais avenida para olhar
menos ocupada com flores
de sacada ou a vasos afeitas,
porque amores-perfeitos são estes
sentados nas cadeiras,
as tão generosas, de armar,
algumas com toalhas de banho
e aparas de pardais, sim
apetece mais o declive
entre os Paços e o Palácio
das Cardosas, mesmo que agora
um gajo corra o risco de enfiar
as trombas no pior sítio
do cavalo de D. Pedro,
de rabo, se quereis saber,
virado para o lado certo.
Quanto às árvores, dai-lhes
tempo para copar os eleitores
que os quatro cantos enfim
vislumbram da sala de visitas,
amouriscada que estava de calcário
com vindimas e bois démodé.
Já o crepúsculo dá cartas
na esquina do Guarani,
o sol nas empenas
de arco e flecha lanceiro
acelera além de S. Bento,
espalho-me ao comprido
de cinza e pedra vestido
e apetece-me então dizer
bela Chernobyl de bairro
nos servis, ó edis,
boa seria para filmar
os Mad Max restantes:
guerreiros da estrada
há-os em quantidade
(e motos da morte
com um pouco de sorte)
mas sem nuvens radioactivas,
mutantes, ignóbil calcário do sul
(ou civis), Mel Gibson
voltaria a rodar no Outback
de New South Wales,
um pouco menos deserto
pós-moderno e minimal,
e com a enorme vantagem
de não ser mobilado
pela infame JC
(Decaux).
Thursday, May 29, 2008
Café Duque

outro para o Alexandre Bahia
Da morte refeitos daremos
dilectos poemas em folhas A4
às mesas do Inverno,
ficaremos a vê-los arder
no gasto mármore entornados
ou na mortalha do sol enrolados,
barbas de milho fumadas
no tapete de cimento
onde aparecem bordadas
as armas do arvoredo
à porta dos paços ducais
entre Palmela e Saldanha.