Monday, April 07, 2008

Prado do Repouso



para o Alexandre Bahia


Proporás um cemitério
a tinta-da-china ou carvão
que o município aprovará:
prado a perder de vista
onde em vez de mausoléus
araucárias de família
com mineiras raízes
abrindo catacumbas
de primitiva cristandade,
Éden a vau no caudal do Estige.

Desenharás um cemitério
sem nos perderes de vista
(que somos senão adiadas
e símias lápides andantes?),
fá-lo-ás no terraço
da Duque de Palmela,
a mesma de Eugénio
que tão perto repousa
com luz de pedras por navio
fronteiro às garagens diurnas.

Desenharás um cemitério
com tudo o que aos mortos aproveite
e não apenas ao luto dos vivos:
biblioteca, esplanada, café de saco,
jardins super flumina duriensis.

Fa-lo-ás com a calma de um piloto
bairrista e portuense.
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Tuesday, October 16, 2007

Rua das Escolas, escritório do Jorge



para a Helena Ramos Pereira,
com as boas-vindas do mundo,
a 16 de Outubro de 2007, Porto.




Oxalá, minha filha,

possas também amar estes baldios

que me raptam a vista

quando me abeiro da janela

e que a turvam, ali onde ela

faz de corista onde incidem

holofotes de Outubro

descendo sobre o palco

o pano da buganvília,

e os pardais actuam no muro

com seu trapeiro figurino,

e se recolhem depois com frio

aos bastidores onde a noite

se impacienta, porque o Porto

tem receio de entrar em cena,

e às vezes, infantil, faz birra,

ou não encontra ninguém na rua

como se fora seu fantasma

ou inimigo.

Faz tu as honras da casa, Helena,

encoraja-o com palavras,

com palmadinhas no ombro,

minha filha, devagarinho,

fá-lo entender que nem sempre

o sono repara, que também

o silêncio é daninho,

que nem sempre convém sair

ou entrar assim,

tão de mansinho.

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Thursday, October 11, 2007

Rua João das Regras (após 48 minutos em Serralves)

para Jorge G.P e Pedro Quezada


São assim os epílogos
de todas as festas:
amigos invictos
e mui leais,
bom vinho da casa,
bacalhau com broa,
cigarros cravados
na Tasquinha
pondo apertado a falar
o que não fala noutros dias
debruçado sobre a mesa
nos cotovelos apoiado
em lugar da cabeça:
o coração, prato do dia
pau para todo o serviço.

Mas o que mais me agrada,
numa cidade onde a vida
está por trás desta luz
que adere tímida e suja
às cortinas,
é quebrar as regras,
as poucas que ainda se podem quebrar
(se a democracia
não
estiver a olhar) 
 
e mijar ao ar livre,
demorando o tempo que aprouver,
sacudindo-a depois

devagar

(à cidade,
se noutra miséria pensáveis).




Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Tuesday, September 18, 2007

Rua de S. Roque da Lameira (N15)

Há uma estrada,

uma estrada-serpente,

mais aprazível e quente

quando lhe bate o sol,

que leva do Porto

ao Museu do Marão,

à sua colecção de estatuária roqueira,

projecções de rosmaninho

em telas de nuvens,

instalações de ciclópicas hélices

cuja ventania só aproveitava, outrora,

a milhafres e falcões.


Ao longo da estrada oleados

tapam lenha e ferro-velho,

ossários de sucata perguntam

ubi sunt?,

hortos rescendem a orvalho,

estufas crivadas de granizo

jazem de bruços,

stands e fábricas de adubo

desfraldam rotas bandeiras

ou números de telefone.


Vendedores de melancia e batata,

doçaria conventual, fogaças,

pão de lenha

(do Padronelo, pois claro),

queijadas de Murça

e compotas de Mateus

evadidos de uma pérola esquecida

do cinema neo-realista.


Recém estrumados lameiros

onde velhos se ocupam a morrer

brandindo o sacho,

e suas velhas a colher,

rangendo, favas & feijões.


Florestas de onde se ergue,

a espaços,

o hórrido grito da moto-serra,

mas sobretudo florestas

que estavam lá

mas já não estão.


e de súbito Vila Real,

(snooker no Excelsior e natas na Gomes)

onde mandam, como no resto,

os que lá não estão.

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Monday, September 10, 2007

Nómadas do Carrossel

Pensais que não sou feliz?

A minha casa é pequena,

o meu quarto um catre,

tudo cheira sobejamente mal

(óleo de farturas, urina de bêbado,

molho de manteiga),

mas gabo-me de tê-la

por convés dos meus sonhos

- os sonhos, já se sabe,

são o cordame das velas

que a viagem levou.

Não sendo tal barca veloz,

consegue manter constante

a distância que me separa

do horizonte

(meu olhar o sustém como um sextante,

ainda há pouco osculei o astrolábio

de uma ursa menor).


Ainda achais que não sou feliz?

Deixemos de lado as metáforas náuticas:

faço soar o apito do carrossel,

conduzo camelos e agasalho girafas,

dou voltas a chávenas e pires colossais,

arrumo os carros de choque,

com damas, de top cor-de-rosa,

a acenar de chupa-chups na boca

e dance-music a bombar

- trim trim mais uma volta,

perna cruzada, cigarro na boca,

uma só mão no volante,

cachecol do FCP

Ray-Ban dans le nez!

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Monday, August 27, 2007

Miragaia sem som

Falta som neste poema

e nem o silêncio é silêncio

(por defeito,

ou porque uma imagem

é calada por natureza).


Quanto à varanda,

mantém-se forma e função:

suporte de lençol lavado no tanque,

torre de onde se espiam os vizinhos

enquanto se barra o pão com manteiga,

ou se cospe,

quando não há melhor diversão

(e se chegou da escola mais cedo e é Verão),

refrescando a careca reluzente

de algum velhote mais catita.


Mas um nome,

esse não tem como ficar:

nem mesmo o do corpo saído do banho

e amado a coberto da manhã.


O nome da avó herdá-lo-á,

com sorte, a neta.

Já o neto, como ia dizendo

antes de matutar nestes versos

- Ó Bítor meu filho da puta!!!

Sobes ou vou chamar o teu pai?!

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Monday, August 20, 2007

Rua Conde de Ferreira (sítio da antiga Escola Primária)

No Porto não faltam valas a céu aberto

onde se empilham cadáveres de crianças

(não podeis vê-las porque o vento,

como sempre, os soprou).


Mas tudo participa de tudo,

e pensamento, fábula, ficção,

quem logrará peneirá-los do que não se vê,

se o que não se vê

não passa de tímida, incompleta

e crudelíssima projecção?


No jazigo de líquenes

e cimento escorrido,

ficou de fora um braço

com sameiras na mão,

e da sombra aquilina rolam,

para o sol, prismáticos berlindes.


Não tinha então –

refiro-me à idade inexistente

que a bala sem trajectória libertou –

tantos

e tão desnecessários adjectivos

(se bem que nada poupasse

ou soubesse de economia:

a tarde era minha eu esticava-a tanto

quanto queria).


O que não compreendo nem perdoo

é isto: que a propósito do pão com fiambre

e do Colacau do lanche, os outros,

prematuros se lançando à vala comum,

ficassem a ver a merda dos desenhos animados


(não me deixando outra escolha

senão animar os desenhos que iam costurando,

no vestíbulo do tempo,

os andrajos da maioridade).

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

 

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Thursday, July 26, 2007

Últimos dias de Pã no Porto

Sopra com inaudita força a flauta de cana,

o grande deus Pã,

no ribeiro devoluto chapinando

com seus cascos fendidos,

pondo em fuga libélulas e rãs

com estranhas mutações

e pentâmetras pernas.


O açude é o cadafalso que se abre

sob as águas, e as águas

espumam e estrebucham no seu leito

- quanto tempo, pergunto, suportarão a corrida

entre o Ipanema e o stand da Renault?


O grande deus Pã já não é grande:

podeis vê-lo sem rumo e sem tino

a partir da VCI,

guiando os rebanhos que já não há

não obstante o viço das ervas.


O grande deus Pã tem a cabeça a prémio.

À noite adormece na barraca mais escondida,

onde as janelas são altifalantes furados

debitando mais alto o tráfego

que o espondeu das águas

o troqueu dos seixos, o dáctilo das margens.


Não vem longe o dia

em que os construtores civis

toparão com seu rasto:

surpreendê-lo-ão colhendo framboesas e amoras.

Seus chifres serão cortados e suspensos

na sede da imobiliária, à laia de troféu,

e o seu melódico cadáver dissimulado

no verso pardo do betão.

 

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Tuesday, July 17, 2007

Igreja do Bonfim

 

Caio que nem pato

na cantiga do órgão de tubos,

na radiação dos vitrais,

nos capitéis do crepúsculo,

no eco das naves centrais,

nos transeptos, púlpitos

e capelas laterais,

eu, ateu empedernido,

ovelha da física quântica,

operador de telescópio,

sacristão do santuário

de Nosso Senhor Electrão

e do beato Neutrino,

espojar-me-ia nas lápides frias

se com isso prolongasse a boca,

a boca sombria que entoa

no coro de três moças que ensaia,

junto ao altar, misererei,

sanctus, agnus dei.


Hoje contento-me em habitar

a torre sineira, coroado

por dejectos de pombas.

Recebo na testa o sacramento da chuva

e corro depois rua abaixo,

qual aqueduto guiando as águas da terra

à terra que não existe mas calcamos no céu.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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Saturday, July 07, 2007

Avestruz na VCI

 

Passai manadas com patas anti-bloqueio,

garrotes pré-tensores, olhos de xénon,

estômagos de explosão,

passai enquanto enfio a cabeça na terra,

na pouca que resta mas acolhe

anémicas papoilas

e subnutridos gafanhotos.


Deixai-me com meus renques

de salsa, menta e hortelã.

Pássaros não os ouço,

vejo-lhes o enxame das asas

além, nas ameias de teixos

sempre que buzina um camião.


Acossado por rails que reclamam

de quando em quando a cabeça

de um motard,

sitiado pelo asfalto viscoso

de tanta gataria decalcada,

cultivo derreado o meu quintal.

Se gritasse agora

nem as toupeiras me ouviriam,

quanto mais as ordens dos anjos.


Cultivo este nó que me ata

ao arado, e me desata

de sistemas de som

e habitáculos climatizados.

Este nó que me desliga de vós

mas não de mim,

provisória terra,

derradeiro separador central.

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

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