Domingo, Dezembro 24, 2006

Morreram as renas, ficaram os bois

Considerai, ó consumidores,
meu tão indigno, deplorável,
mísero estado:
abatidas há muito as renas,
rouca a voz de tanto cigarro
e quanto ao trenó, se quereis saber,
penhorado pelo fisco.

Agora cobiço topos-de-gama
que passo para a Lapónia.
Pelos tubos de queda subo expedito,
ou, de luzes enfeitado,
trepo garrido às varandas
e já me confundem os mais novos
co’ homem-aranha.

Negócios à parte,
sou de facto sócio do Benfica
(já o meu saco, esse é azul).

Tempos houve em que limpavam,
a bem do meu traseiro,
as apertadas e escuras chaminés,
modus faciendi aprendido
com William Blake.
Hoje é impossível caber
nos recuperadores de calor
(seria preciso quebrar o vidro
expondo a grande perigo
este vosso rotundo pai).

Tenho seguro de vida
caso algum petiz me surpreenda e,
percebendo que não lhe trago uma Playstation,
me dê uma ajuda na descida.
A intrusão clandestina é o meu forte,
o fito comandos de garagem,
telemóveis, carteiras,
chaves de ignição.

A fatiota que aqui vedes
dá guarida a ciganos, ossetas, romenos,
guineenses, tchetchenos, drogados,
mendigos, prostitutos, angolanos,
e demais ralé
com muito onde cair morta
longe dos seus países,
camas
e ossadas.

Constato o triunfo, em toda a linha,
do Natal dos hospitais,
pasmo ao ver-me clonado
em tudo quanto é loja, festa
ou centro comercial:
com que então parti da Lapónia,
bebo Coca-Cola, sofro de miopia,
e são duendes as crianças recrutadas na China
para penarem nas fábricas de brinquedos!

Estou velho e cansado,
gostaria de acabar os meus dias
com alguma dignidade
(e não espezinhado à porta da Toys’R’ Us).
Beber um último copo,
fornicar,
ali para os lados da Rua da Alegria,
uma puta de turno
- desdentada porque não
se é para todos o Natal? –
e ter direito, num lar,
a três refeições por dia.

Ou então,
ó vós que comprais
tão apressados a morte do Natal,
esquecei tudo o que vos disse:
se me virdes a trepar,
atirai por favor,
atirai a matar.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

 

Escrito por loucomotiva em 19:17:04 | Link permanente | Comments (5) |
Comentário
1 - E que "bois", os que ficaram...
Adorei, a ideia é fantástica, fotografias e texto excelentes e de facto " os bois" ruminam mas os Bentleys passam!!
Grandes abraços,
Álvaro (Comentar)

Escrito por: Alvaro Teixeira Lopes em 2006/12/26 - 20:05:26
2 - por acasos o fotógrafo dispara a eternizar, o que é uma forma de também matar (com jeitinho).e mainada.
 (Comentar)

Escrito por: Rui Costa em 2006/12/28 - 02:45:11
3 - Eu não sabia que o Pai Natal era sócio do Benfica...Pensei que era do Salgueiros.Ou então do Manchester United,sempre dá jeito o "inglês", mesmo nas lapónias.

Abraço de BOM ANO!

Vi. (Comentar)

Escrito por: vidainvoluntaria em 2006/12/31 - 00:17:44
4 - Ou do Chelsea. Não terá por lá o Mourinho nenhum Nicolau cansado, pontapeador? Abraço e votos de bom ano (seja lá o que isso for). (Comentar)

Escrito por: Rui Lage em 2006/12/31 - 12:43:03
5 - Excelente. Muito bom. (Comentar)

Escrito por: Rui Amaral em 2007/01/03 - 13:47:48
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