Terça-feira, Janeiro 16, 2007

Sem mais demoras

O sol cresce a cada passo
na rua principal,

curva de pássaros
na estrada do céu,

silêncio só perturbado
pelos sapatos na gravilha,

cabeças de animais
a ruminar nos baldios,

húmidos seus olhos
ao ver-nos passar

de fatos que encontram
portões de cemitério.

A terra tem fome, amigo,
a terra tem sempre fome:

entreguemos-lhe o corpo
sem mais pranto ou demoras

(pois já vão sendo horas
de pensar no almoço).

Para o Pai do António Pedro Ribeiro

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

 

Escrito por loucomotiva em 13:23:22 | Link permanente | Comments (9) |
Comentário
1 - Gramo a tua poesia, pá. Foi uma pena o teu «Antigo e Primeiro», esse grande livro, ter passado quase despercebido. Porfia.

José Luís Tavares, poeta caboverdiano (Comentar)

Escrito por: José Luís Tavares em 2007/01/23 - 17:26:15
2 - Obrigadão, man. Isso de os livros passarem despercebidos são ossos do ofício ;) (Comentar)

Escrito por: Rui Lage em 2007/01/23 - 20:31:05
3 - E lá foi a Fiama, no dia 19 de Janeiro, dia de aniversário do Eugénio de Andrade.

E o mais estranho é que o Eugénio partiu num 13 de Junho. Data de nascimento do Fernando Pessoa, do Yeats e do Joaquim Manuel Magalhães.

Bom poema! (Comentar)

Escrito por: vidainvoluntaria em 2007/01/26 - 02:11:12
4 - Curioso. Ouço falar de si há imenso tempo e apesar da curiosidade, só recentemente tive oportunidade de me debruçar sobre a sua poesia. Consegue dissecar alguns lados menos airosos da vida sem se tornar sombrio. Como é que alguém tão jovem consegue ter já 3 livros publicados?
O meu sincero aplauso, sobretudo pela mais recente publicação. (Comentar)

Escrito por: Joana em 2007/01/28 - 13:15:00
5 - Cara Joana, muitíssimo obrigado! Diz-me que consigo "dissecar alguns lados menos airosos da vida sem se [me] tornar sombrio". Garanto-lhe que esse é o comentário mais bonito que alguma vez teceram acerca da minha poesia. É precisamente por isso que escrevo. E sabe como é que o descobri? Através deste seu comentário. A Joana acabou por me dar a resposta que eu há muito procurava. Estou perplexo. Posso dizer-lhe, de resto, que nem sou pessimista nem optimista, sou um céptico. Os Mestres? Séneca e Montaigne. Fico em dívida para consigo. (Comentar)

Escrito por: Rui Lage em 2007/01/28 - 15:57:20
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6 - É de facto um comentário fabuloso este que o Rui recebe da Joana. Deixo claro que está a ser um enorme previlégio levar este trabalho na companhia da qualidade do trabalho do Rui Lage. Também me rendo ao pensamento do pedagogo Montaigne. (Comentar)

Escrito por: Jorge Garcia Pereira em 2007/01/29 - 02:38:03
7 - Jorginho, não havia necessidade... Mas que fique bem claro: a matéria-prima, o sumo, de TODOS os textos da Vala Comum são, nuns casos de forma mais evidente do que noutros, os instantâneos do Jorge. (Comentar)

Escrito por: Rui Lage em 2007/01/29 - 15:59:23
8 - Nos instantâneos e nas impressões (escritas) de que o Jorge os faz acompanhar sempre que me envia material novo.

Tás cuma fronha pouco recomendável no B.I. ... hum... cá para mim estiveste em Custóias... (Comentar)

Escrito por: Rui Lage em 2007/01/29 - 16:03:57
9 - Pensei, de facto, que o meu comentário lhe fosse indiferente, e fiquei perplexa ao notar que as minhas palavras tiveram todo esse efeito. Obrigada eu! Poder iluminar um pouco a vida daqueles que admiramos é algo que não é costume acontecer a pessoas "comuns". Esqueça a dívida! :o) (Comentar)

Escrito por: Joana em 2007/01/30 - 16:59:06
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