Ponte D. Luís - vista sobre o Túnel da Ribeira

Olhássemos o túnel desde o cume dos Alpes,
a nossos pés o Reno, cabeças
literalmente nas nuvens,
carregássemos às costas provisões
de alta montanha
e arriscássemos um passo
onde a escarpa já não garante
a consistência do solo,
diríamos decerto estar à beira de um milagre.
Mas vejamos mais de perto:
um rio de asfalto corre, domesticado,
conduzindo para as entranhas do velho burgo
ruidosos animais de chapa.
Não, a cidade
dorme ainda profundamente.
Caminhantes nem vê-los.
Ficariam surdos na caverna,
ou para sempre dela cativos,
tomando os painéis de Júlio Resende
pela única, objectiva Ribeira.
Quanto às escarpas, neve alguma,
somente cadáveres de gatos,
bacias rasgadas,
seringas, preservativos,
fraldas usadas,
barracas onde viúvas aguardam
a morte com paciência,
em suma,
nenhuma hipótese de consultar
as bruxas de Macbeth
quanto ao futuro do Rivoli,
ou encomendar um feitiço contra edis.
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
