Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

Ponte D. Luís – Lápide junto ao tabuleiro superior

Aqui jaz um prédio,
um prédio onde mães
deram à luz,
onde amantes despiram
garrafas de vinho,
velhos ruíram,
desempregados vieram
fumar à janela,
(crianças,
ver quem era),
onde donas de casa
sacudiram o cansaço da toalha,
doentes convalesceram,
suicidas desistiram,
reformados trouxeram
o cão à rua de madrugada
enquanto estudantes
chegavam da noitada.

Os prédios morrem, é certo,
mas de maneira diversa
dos homens:
estes legam seus corpos
à sempre faminta terra,
e também as almas,
delas se encarregando
o esquecimento
contra tudo o que o amor
prometia.
Aqueles, porém,
adoptam na morte
uma certa compostura:
sem deixarem de ser
um corpo inanimado
são em simultâneo
a lápide que o assinala.

Mas bem feitas as contas
é mais aquilo que na morte
os aproxima,
do que aquilo que os separa:
seus epitáfios
o vento e a chuva,
suas visitas,
pássaros e sol.

É só uma questão de tempo
até que surja, imparável,
o bulldozer.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 16:15:51 | Link permanente | Comments (0) |
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