Segunda-feira, Março 12, 2007

Ilha portuense junto à Rua Damião de Góis

Vinde para a luz,
toupeiras,
aventurai-vos ao sol,
ainda que pobre,
desempregado,
sem superfícies decentes
onde pousar.

Como podeis viver assim
da escuridão?
Deixai vossas tocas,
vossos buracos de luxo
com aquecimento central.

Isto vos garanto: vereis
quão belo pode ser um lençol
a dançar no estendal,
fatiado nas pontas pela sombra
dos muros, abelhas
à volta das molas garridas,
e crianças dando vivas
como se o lençol,
ao vento se entregando,
pudesse levar estes marujos
a algum lado,
tirá-los das galés,
embarcá-los,
ou, içado em fragata,
levar suas Nausicas e Circes
a buscar marido
ou amante.

Vinde ver nossa ilha
de evasivos gatos
e roupa lavada à mão,
estranhar seus costumes
tão cedo ternos quanto brutais.
Só não tenham é pena
dos náufragos:
nunca enviámos
qualquer S.O.S.,
nem tampouco desejamos
o resgate.

Esta ilha não é um destino,
esta ilha
é um Porto.

para a Ana Luísa Amaral

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

 

Escrito por loucomotiva em 16:44:50 | Link permanente | Comments (0) |
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