Domingo, Julho 01, 2007

Recolha: Francos


Fomos Francos, viemos
da Salândia e da Panónia,
tomámos ricas cidades aos romanos,
lavámos as mãos nos seus caldários
e os pés nos tepidários de Ravena
e Tarrascona
(o que não faz de Francos um campo santo,
mas passável e comum
como os demais campos da morte). 

Somos francos: não custa, nem dói,
o solo arejado por vermes,
rico em matéria decomposta
(temo-lo nas veias, pequenos córregos,
cabedelos de areia).

Em francos o que dói
são as queimaduras solares,
as virulentas chagas na pele,
fungos, cardos, urtigas,
a broa de tijolo e betão.

Sejamos francos:
privados dos sempre leais autocarros
só nos resta levar a mão aos cabelos
com o firme propósito
de os arrancar.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 17:45:47 | Link permanente | Comments (2) |
Comentário
1 - Rui, obrigada a ti pelas visitas ao meu espaço.

De facto o poema fica muito interessante centrado; é a vantagem de um novo olhar sobre as nossas (tuas) palavras. A disposição do texto não é de maneira nenhuma inconsequente e pode "dançar" ao mesmo ritmo dos versos (mas é claro que tu sabes disto tudo e muito mais).

Deixa-me acrescentar que foi um rasgo de bem-aventurança estar em Braga, naquela livraria, naquele momento.

Obrigada a ti pelos versos revoltos.

Isabel (Comentar)

Escrito por: Isabel Gomes em 2007/07/04 - 12:12:44
2 - Visitei este não lugar antes de ser desempedrado, conheci até os seus habitantes indigentes. Venderam o granito à escandinávia, assim, já gasto como eles o querem. Assisti(mos) à delapidação deste espaço imenso e aguardamos agora o golpe de magia que há-de tornar a 'recolha' pertencente ao colectivo (STCP), numa urbanização qualquer privadíssima, sem que a cidade se detenha para observar e pensar, que nos tomam os vazios. Saudações a quem tem o olhar arguto. Alexandre (Comentar)

Escrito por: Anónimo em 2008/01/22 - 17:23:23
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