Recolha: Francos

Fomos Francos, viemos
da Salândia e da Panónia,
tomámos ricas cidades aos romanos,
lavámos as mãos nos seus caldários
e os pés nos tepidários de Ravena
e Tarrascona
(o que não faz de Francos um campo santo,
mas passável e comum
como os demais campos da morte).
Somos francos: não custa, nem dói,
o solo arejado por vermes,
rico em matéria decomposta
(temo-lo nas veias, pequenos córregos,
cabedelos de areia).
Em francos o que dói
são as queimaduras solares,
as virulentas chagas na pele,
fungos, cardos, urtigas,
a broa de tijolo e betão.
Sejamos francos:
privados dos sempre leais autocarros
só nos resta levar a mão aos cabelos
com o firme propósito
de os arrancar.
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

De facto o poema fica muito interessante centrado; é a vantagem de um novo olhar sobre as nossas (tuas) palavras. A disposição do texto não é de maneira nenhuma inconsequente e pode "dançar" ao mesmo ritmo dos versos (mas é claro que tu sabes disto tudo e muito mais).
Deixa-me acrescentar que foi um rasgo de bem-aventurança estar em Braga, naquela livraria, naquele momento.
Obrigada a ti pelos versos revoltos.
Isabel (Comentar)