Terça-feira, Julho 17, 2007

Igreja do Bonfim

 

Caio que nem pato

na cantiga do órgão de tubos,

na radiação dos vitrais,

nos capitéis do crepúsculo,

no eco das naves centrais,

nos transeptos, púlpitos

e capelas laterais,

eu, ateu empedernido,

ovelha da física quântica,

operador de telescópio,

sacristão do santuário

de Nosso Senhor Electrão

e do beato Neutrino,

espojar-me-ia nas lápides frias

se com isso prolongasse a boca,

a boca sombria que entoa

no coro de três moças que ensaia,

junto ao altar, misererei,

sanctus, agnus dei.


Hoje contento-me em habitar

a torre sineira, coroado

por dejectos de pombas.

Recebo na testa o sacramento da chuva

e corro depois rua abaixo,

qual aqueduto guiando as águas da terra

à terra que não existe mas calcamos no céu.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 18:13:47 | Link permanente | Comments (0) |
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