Igreja do Bonfim

Caio que nem pato
na cantiga do órgão de tubos,
na radiação dos vitrais,
nos capitéis do crepúsculo,
no eco das naves centrais,
nos transeptos, púlpitos
e capelas laterais,
eu, ateu empedernido,
ovelha da física quântica,
operador de telescópio,
sacristão do santuário
de Nosso Senhor Electrão
e do beato Neutrino,
espojar-me-ia nas lápides frias
se com isso prolongasse a boca,
a boca sombria que entoa
no coro de três moças que ensaia,
junto ao altar, misererei,
sanctus, agnus dei.
Hoje contento-me em habitar
a torre sineira, coroado
por dejectos de pombas.
Recebo na testa o sacramento da chuva
e corro depois rua abaixo,
qual aqueduto guiando as águas da terra
à terra que não existe mas calcamos no céu.
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira
