Morreram as renas, ficaram os bois

Considerai, ó consumidores,
meu tão indigno, deplorável,
mísero estado:
abatidas há muito as renas,
rouca a voz de tanto cigarro
e quanto ao trenó, se quereis saber,
penhorado pelo fisco.
Agora cobiço topos-de-gama
que passo para a Lapónia.
Pelos tubos de queda subo expedito,
ou, de luzes enfeitado,
trepo garrido às varandas
e já me confundem os mais novos
co’ homem-aranha.
Negócios à parte,
sou de facto sócio do Benfica
(já o meu saco, esse é azul).
Tempos houve em que limpavam,
a bem do meu traseiro,
as apertadas e escuras chaminés,
modus faciendi aprendido
com William Blake.
Hoje é impossível caber
nos recuperadores de calor
(seria preciso quebrar o vidro
expondo a grande perigo
este vosso rotundo pai).
Tenho seguro de vida
caso algum petiz me surpreenda e,
percebendo que não lhe trago uma Playstation,
me dê uma ajuda na descida.
A intrusão clandestina é o meu forte,
o fito comandos de garagem,
telemóveis, carteiras,
chaves de ignição.
A fatiota que aqui vedes
dá guarida a ciganos, ossetas, romenos,
guineenses, tchetchenos, drogados,
mendigos, prostitutos, angolanos,
e demais ralé
com muito onde cair morta
longe dos seus países,
camas
e ossadas.
Constato o triunfo, em toda a linha,
do Natal dos hospitais,
pasmo ao ver-me clonado
em tudo quanto é loja, festa
ou centro comercial:
com que então parti da Lapónia,
bebo Coca-Cola, sofro de miopia,
e são duendes as crianças recrutadas na China
para penarem nas fábricas de brinquedos!
Estou velho e cansado,
gostaria de acabar os meus dias
com alguma dignidade
(e não espezinhado à porta da Toys’R’ Us).
Beber um último copo,
fornicar,
ali para os lados da Rua da Alegria,
uma puta de turno
- desdentada porque não
se é para todos o Natal? –
e ter direito, num lar,
a três refeições por dia.
Ou então,
ó vós que comprais
tão apressados a morte do Natal,
esquecei tudo o que vos disse:
se me virdes a trepar,
atirai por favor,
atirai a matar.
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira



