Terça-feira, Outubro 16, 2007

Rua das Escolas, escritório do Jorge



para a Helena Ramos Pereira,
com as boas-vindas do mundo,
a 16 de Outubro de 2007, Porto.




Oxalá, minha filha,

possas também amar estes baldios

que me raptam a vista

quando me abeiro da janela

e que a turvam, ali onde ela

faz de corista onde incidem

holofotes de Outubro

descendo sobre o palco

o pano da buganvília,

e os pardais actuam no muro

com seu trapeiro figurino,

e se recolhem depois com frio

aos bastidores onde a noite

se impacienta, porque o Porto

tem receio de entrar em cena,

e às vezes, infantil, faz birra,

ou não encontra ninguém na rua

como se fora seu fantasma

ou inimigo.

Faz tu as honras da casa, Helena,

encoraja-o com palavras,

com palmadinhas no ombro,

minha filha, devagarinho,

fá-lo entender que nem sempre

o sono repara, que também

o silêncio é daninho,

que nem sempre convém sair

ou entrar assim,

tão de mansinho.

Escrito por loucomotiva em 23:49:58 | Link permanente | Comments (0) |

Quinta-feira, Outubro 11, 2007

Rua João das Regras (após 48 minutos em Serralves)

para Jorge G.P e Pedro Quezada


São assim os epílogos
de todas as festas:
amigos invictos
e mui leais,
bom vinho da casa,
bacalhau com broa,
cigarros cravados
na Tasquinha
pondo apertado a falar
o que não fala noutros dias
debruçado sobre a mesa
nos cotovelos apoiado
em lugar da cabeça:
o coração, prato do dia
pau para todo o serviço.

Mas o que mais me agrada,
numa cidade onde a vida
está por trás desta luz
que adere tímida e suja
às cortinas,
é quebrar as regras,
as poucas que ainda se podem quebrar
(se a democracia
não
estiver a olhar) 
 
e mijar ao ar livre,
demorando o tempo que aprouver,
sacudindo-a depois

devagar

(à cidade,
se noutra miséria pensáveis).




Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 20:17:55 | Link permanente | Comments (0) |