Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

Avenida da Ponte, perto da Estação de S. Bento

Enquanto não chega o comboio
que o há-de levar às piscinas da Granja,
atalha o átrio de S. Bento
imune aos painéis de Jorge Colaço
e à fronha do Egas Moniz
para esticar as pernas na Praça Almeida Garrett,
onde evita, a custo,
o atropelamento e fuga.

De chinelo de praia,
toalha ao ombro,
óculos de sol
e auriculares nos ouvidos,
atravessa a Rua do Loureiro
por pouco não falhando
a mais recente instalação
de arte contemporânea.

O título, Oliva,
o artista, desconhecido.

S. Bento teria dito:
ponham-lhe ao menos uma cruz em cima.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 18:26:55 | Link permanente | Comments (3) |

Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

Ponte D. Luís – Lápide junto ao tabuleiro superior

Aqui jaz um prédio,
um prédio onde mães
deram à luz,
onde amantes despiram
garrafas de vinho,
velhos ruíram,
desempregados vieram
fumar à janela,
(crianças,
ver quem era),
onde donas de casa
sacudiram o cansaço da toalha,
doentes convalesceram,
suicidas desistiram,
reformados trouxeram
o cão à rua de madrugada
enquanto estudantes
chegavam da noitada.

Os prédios morrem, é certo,
mas de maneira diversa
dos homens:
estes legam seus corpos
à sempre faminta terra,
e também as almas,
delas se encarregando
o esquecimento
contra tudo o que o amor
prometia.
Aqueles, porém,
adoptam na morte
uma certa compostura:
sem deixarem de ser
um corpo inanimado
são em simultâneo
a lápide que o assinala.

Mas bem feitas as contas
é mais aquilo que na morte
os aproxima,
do que aquilo que os separa:
seus epitáfios
o vento e a chuva,
suas visitas,
pássaros e sol.

É só uma questão de tempo
até que surja, imparável,
o bulldozer.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 16:15:51 | Link permanente | Comments (0) |

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

Ponte D. Luís - vista sobre o Túnel da Ribeira

 


Olhássemos o túnel desde o cume dos Alpes,
a nossos pés o Reno, cabeças
literalmente nas nuvens,
carregássemos às costas provisões
de alta montanha
e arriscássemos um passo
onde a escarpa já não garante
a consistência do solo,
diríamos decerto estar à beira de um milagre.

Mas vejamos mais de perto:
um rio de asfalto corre, domesticado,
conduzindo para as entranhas do velho burgo
ruidosos animais de chapa.
Não, a cidade
dorme ainda profundamente.

Caminhantes nem vê-los.
Ficariam surdos na caverna,
ou para sempre dela cativos,
tomando os painéis de Júlio Resende
pela única, objectiva Ribeira.
Quanto às escarpas, neve alguma,
somente cadáveres de gatos,
bacias rasgadas,
seringas, preservativos,
fraldas usadas,
barracas onde viúvas aguardam
a morte com paciência,
em suma,
nenhuma hipótese de consultar
as bruxas de Macbeth
quanto ao futuro do Rivoli,
ou encomendar um feitiço contra edis.


Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

 

Escrito por loucomotiva em 21:33:41 | Link permanente | Comments (1) |

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

Teatro do Terço, junto à Praça do Marquês

Faria sentido um final feliz. Afinal
ergue-se ao fundo o pináculo
onde jaz a bela adormecida
à espera do beijo redentor.
Mas esta não é uma dessas histórias.
Começa, é verdade
com chocolates Allegro
comprados no intervalo da matiné
e com esguias raparigas às quais
não conseguíamos piscar o olho
sem desenhar uma careta.
Corridas para sempre as grades
que somente à noite protegiam
o Terço de algum delinquente,
só nos resta seguir em frente,
fazer de conta
que as grades não foram corridas
sobre a melhor parte de nós.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

 

Escrito por loucomotiva em 15:24:06 | Link permanente | Comments (2) |