March of the Pigeons & Penguins,(first to take Manhattan, then to take Oporto)

Vós que fostes correios
de amanhãs cantantes
batei vossas asas, pombos:
batei-as com a fúria
dos pássaros de Hitchcock,
não com a souplesse
do ramo de oliveira.
E vós, pinguins,
não vos deixeis desencorajar
pela ineficácia de vossas asas
- sabeis bem do que sois capazes
se assististes aos filmes da Pixar,
ou à vossa Marcha, imperadores,
numa sala não suficientemente
perto de nós.
Empoleirai-vos sobre semáforos,
viadutos
e cumes de prédios dos anos oitenta,
até que estes, sob a vossa massa,
soçobrem.
Tomai de assalto os automóveis
parados no vermelho,
vazai os olhos aos condutores
que insultam
e cospem para o chão.
Patinhai rumo aos ecopontos,
persegui as boas consciências ecológicas
(arde Amazónia, arde!)
até que desapareçam com suas sacas
de porcaria escrupulosamente
separada.
Estimados pombos,
vós que beijastes pela manhã,
as faces todas do Porto,
século após século osculadas
por autarcas com cieiro
e herpes labial,
lembrai antigos ecos
de praças que eram praças,
casas que eram casas
e ruas que eram ruas
(não anúncios de coisas).
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira


