Segunda-feira, Maio 28, 2007

Requiescat in Pacem (Sport Comércio e Salgueiros)

Não há tecto que trave
o progresso das nuvens,
nem ascese que triunfe,
por mais devota,
onde cabos de alta tensão
conduzam a vida ao gerador da morte,
por corredores decorados
com retábulos
a ostentar anónimas estrelas
do hip-hop nacional.

Eis o tapete do relvado
que depois de varrido se prende
sob o peso do passado.

Aqui jaz
o Sport Comércio e Salgueiros,
aqui jaz
o Vidal Pinheiro.

Só o ar frio não mudou:
ciranda junto aos portões
qual criança confundindo
câmaras de gás
com balsâmicos duches.

Saísse agora à noitinha
do treino de pólo aquático,
esse ar viria por certo
lamber-me os cabelos molhados.

Mas em vez do crematório
e da vala comum,
três dias de cama.

Dias iguais a tantos outros:
dias constipados.

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 13:10:33 | Link permanente | Comments (3) |

Sexta-feira, Maio 18, 2007

Velho Porto Vinhateiro

Fosse este o século do romantismo,
alvores de novecentos,
quão preciosas seríamos,
nós, as ruínas.

Como assentaria bem à vereda
atapetada de musgo,
ladeada de arbustos
e córregos discretos,
o género pitoresco.

Fidalgas
deixariam dançar as saias
no soalho dos líquenes,
ou afundar as botinas
na terra lamacenta.
Olhariam de soslaio
robustos vindimadores nas encostas:
fidalgas herdeiras de caves,
evitando o contacto dos muros,
um temor sempre latente
perante a ameaça de cães corpulentos
após a curva no fim do caminho.

Mas este não é o século do romantismo,
o Porto deixou há muito morrer
o camponês dentro de si.
De pitoresco só alguns becos
a jeito para acolher
toda a espécie de lixo,
vielas com charcos infectos,
fezes de bêbado a quem ordenaram
que fosse morrer longe,
detritos de um Porto
que passou à história.

Nada temam porém os apóstolos
e estetas da modernidade:
nós, ruínas,
temos decerto pela frente
um futuro brilhante:
condomínios fechados
para gente fechada.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 18:00:43 | Link permanente | Comments (0) |

Segunda-feira, Maio 07, 2007

Guerra Civil

Os aliados,
derrotado o bulício dos bordéis,
travado o rolar das bolas
no pano dos bilhares,
subjugadas as peixeiras de maus modos,
despidos os travestis,
purgados os bêbados,
erradicada a fauna da droga,
aculturadas as crianças avessas à escola
mais suas mães que esfregam escadas,
darão continuidade à retirada
do coração da cidade,
cobertos pelo friendly fire
dos planos directores municipais.

Sosseguemos.
De tão deserto
o Porto não corre por ora
risco de enfarte.
Ei-lo de costas voltadas para Oriente
com sua casta de lugares exóticos,
especiarias
com que temperar a solidão,
confeitarias que se diriam
checkpoint charlie’s.

As pequenas bolsas de resistência
ouvem já o toque de finados:
mercearias, por exemplo,
meia dúzia de cafés tuberculosos,
vendedores de fruta
sem mercados.

Os civis não tomam partido,
dirão alguns optimistas.
Mas isso é quando a guerra
não é civil.

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 19:24:25 | Link permanente | Comments (0) |