Quinta-feira, Julho 26, 2007

Últimos dias de Pã no Porto

Sopra com inaudita força a flauta de cana,

o grande deus Pã,

no ribeiro devoluto chapinando

com seus cascos fendidos,

pondo em fuga libélulas e rãs

com estranhas mutações

e pentâmetras pernas.


O açude é o cadafalso que se abre

sob as águas, e as águas

espumam e estrebucham no seu leito

- quanto tempo, pergunto, suportarão a corrida

entre o Ipanema e o stand da Renault?


O grande deus Pã já não é grande:

podeis vê-lo sem rumo e sem tino

a partir da VCI,

guiando os rebanhos que já não há

não obstante o viço das ervas.


O grande deus Pã tem a cabeça a prémio.

À noite adormece na barraca mais escondida,

onde as janelas são altifalantes furados

debitando mais alto o tráfego

que o espondeu das águas

o troqueu dos seixos, o dáctilo das margens.


Não vem longe o dia

em que os construtores civis

toparão com seu rasto:

surpreendê-lo-ão colhendo framboesas e amoras.

Seus chifres serão cortados e suspensos

na sede da imobiliária, à laia de troféu,

e o seu melódico cadáver dissimulado

no verso pardo do betão.

 

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 18:11:34 | Link permanente | Comments (2) |

Terça-feira, Julho 17, 2007

Igreja do Bonfim

 

Caio que nem pato

na cantiga do órgão de tubos,

na radiação dos vitrais,

nos capitéis do crepúsculo,

no eco das naves centrais,

nos transeptos, púlpitos

e capelas laterais,

eu, ateu empedernido,

ovelha da física quântica,

operador de telescópio,

sacristão do santuário

de Nosso Senhor Electrão

e do beato Neutrino,

espojar-me-ia nas lápides frias

se com isso prolongasse a boca,

a boca sombria que entoa

no coro de três moças que ensaia,

junto ao altar, misererei,

sanctus, agnus dei.


Hoje contento-me em habitar

a torre sineira, coroado

por dejectos de pombas.

Recebo na testa o sacramento da chuva

e corro depois rua abaixo,

qual aqueduto guiando as águas da terra

à terra que não existe mas calcamos no céu.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 18:13:47 | Link permanente | Comments (0) |

Sábado, Julho 07, 2007

Avestruz na VCI

 

Passai manadas com patas anti-bloqueio,

garrotes pré-tensores, olhos de xénon,

estômagos de explosão,

passai enquanto enfio a cabeça na terra,

na pouca que resta mas acolhe

anémicas papoilas

e subnutridos gafanhotos.


Deixai-me com meus renques

de salsa, menta e hortelã.

Pássaros não os ouço,

vejo-lhes o enxame das asas

além, nas ameias de teixos

sempre que buzina um camião.


Acossado por rails que reclamam

de quando em quando a cabeça

de um motard,

sitiado pelo asfalto viscoso

de tanta gataria decalcada,

cultivo derreado o meu quintal.

Se gritasse agora

nem as toupeiras me ouviriam,

quanto mais as ordens dos anjos.


Cultivo este nó que me ata

ao arado, e me desata

de sistemas de som

e habitáculos climatizados.

Este nó que me desliga de vós

mas não de mim,

provisória terra,

derradeiro separador central.

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 12:22:03 | Link permanente | Comments (0) |

Domingo, Julho 01, 2007

Recolha: Francos


Fomos Francos, viemos
da Salândia e da Panónia,
tomámos ricas cidades aos romanos,
lavámos as mãos nos seus caldários
e os pés nos tepidários de Ravena
e Tarrascona
(o que não faz de Francos um campo santo,
mas passável e comum
como os demais campos da morte). 

Somos francos: não custa, nem dói,
o solo arejado por vermes,
rico em matéria decomposta
(temo-lo nas veias, pequenos córregos,
cabedelos de areia).

Em francos o que dói
são as queimaduras solares,
as virulentas chagas na pele,
fungos, cardos, urtigas,
a broa de tijolo e betão.

Sejamos francos:
privados dos sempre leais autocarros
só nos resta levar a mão aos cabelos
com o firme propósito
de os arrancar.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 17:45:47 | Link permanente | Comments (2) |