Terça-feira, Setembro 18, 2007

Rua de S. Roque da Lameira (N15)

Há uma estrada,

uma estrada-serpente,

mais aprazível e quente

quando lhe bate o sol,

que leva do Porto

ao Museu do Marão,

à sua colecção de estatuária roqueira,

projecções de rosmaninho

em telas de nuvens,

instalações de ciclópicas hélices

cuja ventania só aproveitava, outrora,

a milhafres e falcões.


Ao longo da estrada oleados

tapam lenha e ferro-velho,

ossários de sucata perguntam

ubi sunt?,

hortos rescendem a orvalho,

estufas crivadas de granizo

jazem de bruços,

stands e fábricas de adubo

desfraldam rotas bandeiras

ou números de telefone.


Vendedores de melancia e batata,

doçaria conventual, fogaças,

pão de lenha

(do Padronelo, pois claro),

queijadas de Murça

e compotas de Mateus

evadidos de uma pérola esquecida

do cinema neo-realista.


Recém estrumados lameiros

onde velhos se ocupam a morrer

brandindo o sacho,

e suas velhas a colher,

rangendo, favas & feijões.


Florestas de onde se ergue,

a espaços,

o hórrido grito da moto-serra,

mas sobretudo florestas

que estavam lá

mas já não estão.


e de súbito Vila Real,

(snooker no Excelsior e natas na Gomes)

onde mandam, como no resto,

os que lá não estão.

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 14:18:53 | Link permanente | Comments (2) |

Segunda-feira, Setembro 10, 2007

Nómadas do Carrossel

Pensais que não sou feliz?

A minha casa é pequena,

o meu quarto um catre,

tudo cheira sobejamente mal

(óleo de farturas, urina de bêbado,

molho de manteiga),

mas gabo-me de tê-la

por convés dos meus sonhos

- os sonhos, já se sabe,

são o cordame das velas

que a viagem levou.

Não sendo tal barca veloz,

consegue manter constante

a distância que me separa

do horizonte

(meu olhar o sustém como um sextante,

ainda há pouco osculei o astrolábio

de uma ursa menor).


Ainda achais que não sou feliz?

Deixemos de lado as metáforas náuticas:

faço soar o apito do carrossel,

conduzo camelos e agasalho girafas,

dou voltas a chávenas e pires colossais,

arrumo os carros de choque,

com damas, de top cor-de-rosa,

a acenar de chupa-chups na boca

e dance-music a bombar

- trim trim mais uma volta,

perna cruzada, cigarro na boca,

uma só mão no volante,

cachecol do FCP

Ray-Ban dans le nez!

 

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Escrito por loucomotiva em 13:20:39 | Link permanente | Comments (0) |