Friday, July 18, 2008

O 111 de Eugénio na Duque de Palmela

Vivia sozinho na ilha do Porto
de láudanos cercado
por todos os lados, era portanto
um corvo-marinho,
bem viveria em Maspalonas
de conluio com o Público
ao Domingo e alguns gatos.

Este ano voltou a florir
o jacarandá no Largo do Viriato,
o despudor do seu enxame lilás
obriga a mudar de passeio.
Tudo se renova e restaura
entre estrelas de arrabalde
e cães atropelados,
mas nele a morte era,
quem diria, mortal.

Para si reclamaram este par
de palavras: branco
e cal, e à custa delas
o corpo ardeu-lhe
vagaroso e escuro
com maçãs no hospital
e foi no fim como previra
ranho, baba, merda
em suma tudo menos
um passeio alegre.

Levantam-se da rua as vozes
e voltam a cair,
não batem à sua porta
como dantes para morrer,
algumas dormem ao relento
na esperança de camarote
no piso mais térreo da vida.

Após dez ou mil anos
a consumir obrigado
matéria solar
é preciso agora deixá-lo dormir
sem o mar.

Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira

Posted by loucomotiva at 16:42:41
Comments

2 Responses to “O 111 de Eugénio na Duque de Palmela”

  1. lcd monitors says:

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