Mecânica de Pneus no Carvalhido

para o Marco, in memoriam
Fomos amigos de infância,
andámos à bulha,
disputámos a bola e outras coisas
da mais alta importância
na Quinta da Prelada
quando o Porto confinava
com lameiros e campos de milho
e nem assim findava
pois lhe acresciam vacas,
galinhas, batatas e até cavalos
antes do fosso medievo da VCI
barrar o acesso à torre que havia
no meio do lago, e onde
só de barca se chegaria
se a barca, tirada que estava da margem
e de remos espoliada, alcançássemos.
Na Monte dos Burgos montados em bicicletas
amiúde repreendidos, de tão íngremes,
pelo bom Chefe da 13ª,
só nesta garagem os planos
não saíam furados,
sempre aí havia quem nos saudasse:
Bons-dias Ó câmaras-de-ar
de propósitos vazias!
À barca, à barca!, remendos do estio!
E pois entraste na barca
foi teu arrais automóvel
e tua prancha fatal a mota
com que saíste para fumar às escondidas,
ou namorar as meninas do Carvalhido
antes do salvífico hospital
que se ergue para os queimados
qual pira assente em antenas
e poentes Firestone.
Texto: Rui Lage
Fotografia: Jorge Garcia Pereira